terça-feira, 21 de abril de 2009

O Engatinhador profissional

Eu decidi já faz algum tempo que eu não poderia ser egoísta a esse ponto. Não. Seria muita mesquinhez com o mundo, com a humanidade, não dividir esses acontecimentos extraordinários vividos ou causado por essa pessoa ímpar, única, e graças a Deus pra vocês, exclusiva: meu marido Jota.
A última do Jó (como eu carinhosamente o chamo) foi quase que inenarrável, mas faço aqui um excelso das tripas coração para brindá-los com essa genialidade do meu querido cônjuge.

Estávamos nós a assistir o canal de esportes, no qual passava uma competição de atletismo: revezamento quatro por cem metros. Aqueles atletas com uma espetacular forma física, no limite de suas forças, a pisarem o chão com uma fúria tamanha que até faziam seus rostos se deformarem; a perfeita coreografia com que passavam aquele bastão para seus companheiros; o suspense da platéia, quase em apnéia de tanta ansiedade pelo desfecho da prova.

Observávamos tudo muito compenetrados, mesmo enlevados com aquele espetáculo. Eu, pelo menos. Pois o Jota estava maquinando uma de suas pérolas, que expôs sem escrúpulo nenhum, à queima-roupa, sem nenhum cuidado com meu quase-êxtase telespectadeiro:
- Sabe o que seria interessante? Se além de corredores, o atletismo tivesse também engatinhadores profissionais.
- Oi, Jota? É o quê? (Sinceramente não achei que tivesse ouvido direito).
- Sim, por que só correr? Não seria interessante se houvessem competições nas quais os competidores, ao invéz de correr, engatinhassem? Sabe? Tipo assim: engatinhassem rápido, competindo mesmo, pra ver quem engatinha mais rápido, quem faz um percursso engatinhando, sei lá, de 100 metros, em menos tempo? Tipo corrida mesmo, sabe? Só que engatinhando, não seria interessante?
... (Silêncio meu e cara de interrogação)
- Tá falando sério, meu filho?
- Ah, sei lá... Podia ser interessante. Poderia ter quase todas as provas de atletismo assim, tudo engatinhando: os 100 metros, 200, 400, revesamento, saltos, lançamentos, maratonas, obstáculos... Não, obstáculos não acho que conseguiriam, mas sei lá... Acho que um cara que fosse um engatinhador seria um atleta do caramba, teria que ter além de pernas, braços muito fortes, uma coluna muito forte...
... (Novo silêncio meu, testa mais franzida, boca se entortando levemente, uma interrogação 50% maior)
- Mas, querido, (falo com a calma de quem não quer contrariar um louco agressivo) não sei se entendi... Os caras iam correr de quatro? - Ao que ele se exaspera:
- Que maneira de falar, mulher! Correr de quatro! Falando assim até fica parecendo meio idiota!...
... ("Dãah!", penso pra mim mesma)
- Seria engatinhar! Engatinhar rápido!
- Mas, querido, (retruco com mais jeito ainda, visto que ele fica meio agitado) será que eles não iam machucar os joelhos, ou as próprias mãos, engatinhando como você diz?
- Então! Como todo esporte de alto nível...
... ("Esporte de alto nível? Nuuusssaaa..." )
- ... a indústria ia correr atrás, lançar joelheiras e luvas especiais para engatinhadores, testar novos materiais, resistentes... Joelheiras com pregos, igual aos sapatos dos corredores... Tudo para diminuir os impactos, aumentar a estabilidade do engatinhador, melhorar a performance e tudo o mais.
... (!) (Sem palavras...)
E ele continua:
- Eu acho que seria uma sensação, a garotada ia se amarrar, novos centros seriam criados, ia virar febre! Eu mesmo seria um fã, ia acompanhar todos os eventos... Quem sabe até começasse a treinar... Sabe, pra ser também um engatinhador...
... (Silêncio sepulcral, olhos esbugalhados, boca aberta de espanto, mão na boca e por fim, um inevitável movimento de "não' com a cabeça)
- O quê?- ele reage ofendido e meio surpreso. - Oxe! Eu acharia legal... Mas foi só uma idéia...
- Jota: Cala a boca, véi!!
- O quê!??!! Eu heim? Foi só uma idéia...

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*Jota é um personagem fictício, inspirado nas figuras masculinas (pai, irmãos, marido, amigos, etc) da minha história.

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