Há apenas 35 anos, teve fim em Portugal um regime autoritário de inspiração fascista que durou 48 anos! Isso mesmo, minha gente! Assim como o Brasil e outras várias nações no globo, Portugal experimentou também as amarguras de uma ditadura, com direito a um tirano (Antonio Oliveira Salazar), censuras, forças (brutas) armadas, perseguições políticas, prisões, torturas, exílios e tudo o mais que é próprio ao cotidiano dos sistemas autoritários.
O que é mais tocante é a poesia com que o povo português faz todas as coisas. Até mesmo uma revolução.
Os militares opositores ao regime do Estado Novo Português, para darem início aos movimentos de Golpe de Estado, usaram um código singular: a música. "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso, foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos (a 1ª sinal foi outra canção: 'E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho) e seu tiro de largada. A canção refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo (região de Portugal ao sul do Rio Tejo), e usa expressões como "Dentro de ti, o povo é quem mais ordena" e "em cada rosto igualdade". Claro, havia sido censurada pelo regime salazarista como uma música associada ao Comunismo. Às zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar as operações da revolução. (Wikipédia)¹ Ouça a música no YouTube: http://tinyurl.com/dl2j8k
O que é mais tocante é a poesia com que o povo português faz todas as coisas. Até mesmo uma revolução.
Os militares opositores ao regime do Estado Novo Português, para darem início aos movimentos de Golpe de Estado, usaram um código singular: a música. "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso, foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos (a 1ª sinal foi outra canção: 'E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho) e seu tiro de largada. A canção refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo (região de Portugal ao sul do Rio Tejo), e usa expressões como "Dentro de ti, o povo é quem mais ordena" e "em cada rosto igualdade". Claro, havia sido censurada pelo regime salazarista como uma música associada ao Comunismo. Às zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar as operações da revolução. (Wikipédia)¹ Ouça a música no YouTube: http://tinyurl.com/dl2j8k
Penso na sensibilidade dos opositores do regime, na delicadeza de optarem por uma canção para ser senha que desencadearia um movimento de ânsia pela liberdade. No ferver dos acontecimentos, na rudeza das ações bélicas, na raivosa oposição ao autoritarismo, a licença para iniciar a marcha é a voz rouca e forte de Zeca Afonso, cantando a fraternidade. Penso que nem mesmo a grandeza de Amália Rodrigues teria sido tão comovente quanto o timbre grave de Zeca Afonso, ilustrando mesmo a alma portuguesa cheia da saudade e da fibra dos célebres e antigos navegadores que tão bem caracteriza essa guerreira nação lusitana.
Só esse aspecto já seria suficientemente inspirador, mas a poesia não pára aí. Soada Grândola Vila Morena na Rádio Renascença, saíram os militares de várias localidades de Portugal e, numa ação coordenada, renderam várias localidades estratégicas do país. Logo ao amanhecer do dia, em Lisboa, enquanto o Terreiro do Paço (entrada de honra da cidade e sede dos ministérios) era tomado pela Escola Prática de Infantaria (vinda de Santarém, 60 km da capital portuguesa), as pessoas começaram a juntar-se nas ruas, solidárias com os soldados revoltosos. Nesse ínterim, alguém teria distribuído cravos para os soldados, que os colocaram nos canos de suas espingardas. Existem várias versões sobre quem terá sido. Uma delas é que uma florista contratada para levar cravos para a abertura de um hotel foi vista por um soldado o qual, pegando uma das flores, a teria colocado no cano de sua espingarda, no que foi seguido por todos. (Wikipédia)²
Acredito que nem se tivesse sido gerada da sensibilidade de um Fernado Pessoa, a idéia de uma revolução como essa, iniciada em música e transcorrida em meio flores teria sido tão graciosamente arquitetada. Nem se tivesse sido concebida pela genialidade de um José Saramago, o cenário de uma revolução como esse não despertaria em nós uma análise tão romântica, utópica e esperançosa.
Imagino o que não foi essa cena! Era primavera, mas nunca as flores tinham representado tanto para um povo³: cravos vermelhos nas espingardas dos soldados e o povo na rua, tomando parte das ações militares, assistindo, sofrendo, vivendo a revolução in loco. É impossível não relacionar essa imagem com nosso hino tupiniquim de ânsia democrática 'Pra não dizer que não falei das flores', de Geraldo Vandré. Literalmente, o povo português fez sua história conforme os versos brasileiros de 1968:
"Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão..."
O lirismo da alegoria de um cravo vermelho metido dentro de um cano de uma espingarda nas mãos de um soldado ultrapassa a retomada da democracia portuguesa em 25 de abril de 1974. Remete à Guerra Civil em curso na Somália, ao terrorismo Afegão contra o Ocidente, aos 300 mil soldados americanos espalhados em bases militares em mais de 140 países4 e mesmo à guerra urbana entre traficantes e policiais no Rio de Janeiro.
Intensifica-se, proporcionalmente ao vermelho dos cravos, o desejo de que o bem, a liberdade, a fraternidade e a beleza atravanquem os dispositivos do ódio, da divisão, da imposição, da não-democracia no mundo globalizado de hoje.
Faz-nos meditar sobre a utopia da paz numa sociedade onde o subsídio à indústria bélica é sinônimo de política de segurança nacional (em especial nos países de maior força político-ideológica) e sua priorização é regularmente defendida em detrimento de outras indústrias essenciais e que lutam contra a falência5,
Leva-nos a questionar um sistema que se fia na fábula dos mercados financeiros, cujos 'cracks' produzem desemprego e crise e que cada vez mais desvaloriza o poder dos sentimentos, da fé, das canções e das flores!
E, por fim, a memória do cravo vermelho do 25 de Abril gera em nós a admiração pelo povo português, que não obstante se degladiarem atualmente com a maior taxa de desemprego do últimos 23 anos, com as eternas batalhas na esfera da educação pública, com as incômodas e periódicas novas sobre os Freeports da vida, é um povo que inegavelmente soube fazer bem uma Revolução.
1 http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_dos_Cravos
2 http://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A2ndola_Vila_Morena
3 http://topazio1950.blogs.sapo.pt/124222.html
4 http://resistir.info/)
5 Artigo do Site The American Prospect: http://www.prospect.org/cs/articles?article=mobilizing_american_industry_for_war
6 Site da Associação 25 de Abril: http://www.25abril.org/specific/25abril2/index.html (Excelente fonte histórica).


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