Estava caminhando no parque. O dia estava fresco, um sol calmo e uma leve brisa. De repente, após a cerca, avistei um pequeno macaquinho, meio cinza meio marrom, me olhando e me acompanhando na caminhada. Achei divertido, que bichinho inteligente! Apressei o passo e ele também. Diminuí a velocidade e ele também. Que estranho... Continuei andando, me distraía com as pessoas passando por mim, uma criança, um ciclista... Procurei de novo o bichinho: lá estava ele, ainda me seguindo. Que coisa!...
Distraí-me novamente pensando em minha agenda: reunião na empresa, salão de beleza, almoço com a mamãe, de volta para a empresa, missa de formatura da Lurdinha... Chego ao carro. Será que o macaquinho desistiu de mim? Abrindo a porta, dou uma olhada para a cerca que ficou já ao longe. Espremo os olhos, procurando. Nada. Vou tirando o tênis antes de entrar no carro e não posso conter o grito de espanto: o pequeno primata está bem ali, aos meus pés, me olhando calmamente.
– Sai, sai!!
Ele nem se move. Entro no carro, apressada, com medo.
– Calma, calma, mulher! Respira! É só um mico maluco, talvez queira comida... Ele nem tá fazendo nada, ta só aí, olhando, quietinho... – Olho de novo para o meio fio e ele está lá, parado, me olhando. – Eu heim? Tchau, bichinho, fique aí, coisinha esquisita...
Dou a partida no carro e saio do parque, ainda assustada com o acontecimento inusitado... Credo... Bicho esquisito... De repente penso:
– Será que era o mesmo macaco? Sei lá, poderia ser outro, o parque é do lado de uma reserva ambiental, lá deve ter milhares daqueles... – Começo a rir de mim mesma e do meu ataque de pânico causado por inocentes macaquinhos.
***
Tiro a roupa de ginástica suada pelo exercício, coloco dentro do cesto de roupa e começo a repassar mentalmente minha agenda. Entro no box e me apresso no banho para não me atrasar. Sabonete, bucha, ok... Xampu, no batente da janelinha, mas o quê que é isso do lado de fora? Ai, meu Deus, não pode ser... O macaquinho!
Deixo o xampu cair e saio correndo do banheiro, gritando. D. Graça vem apressada:
− Qui foi, minina?!
− D.Graça! Tem um mico, tem um mico na janela do meu banheiro!
− Um micu? Dex’o vê... É vredadi, qui gracinha!... Carma, minina, carma... Eli tá du lado di fora da janela i ela tá trancada! Pruque cê tá cum medu? Eli tá quetim, só ti oianu...
Contei a estória do parque para D. Graça, tentando me controlar e disfarçar meu pavor com isso tudo.
− Credo, minina! Qui coisa isquisita! Isso tá pareceno trabaio feito...
− Quê isso, D. Graça, eu não acredito nessas coisas não!
− Termina seu banhu!...
− Não tenho mais tempo. Esse mico filho da mãe acabou me atrasando.
Acabo de me vestir apressadamente e entro no banheiro para pegar um pente e prender o cabelo. O mico ainda está lá na janelinha, me olhando. Mas só me faltava essa! Esse mico gamou em mim...
***
− Gente, me desculpem o atraso, se vocês soubessem o que me aconteceu hoje...
− Tudo bem, tudo bem, a reunião foi cancelada mesmo... − retruca distraidamente uma das minhas sócias, Karen, enquanto a outra, Thaíse, responde tranqüilamente seus e-mails.
− Por quê? − pergunto frustrada depois de todo o esforço feito para chegar a tempo.
− Os fornecedores tiveram um atraso na produção e ligaram ontem, logo depois que você saiu, marcando um encontro para semana que vem. Mas o que você tem, mulher? Parece abatida! − pergunta Thaíse, só agora tirando os olhos da tela do computador e reparando meu estado.
− É, fui fazer uma caminhada no parque, me atrasei em casa e não tive tempo de comer nada! Estou com fome e muito nervosa... Que horas são?
− Vai dar nove horas. Vamos tomar um cafezinho na copa e você conta o que aconteceu. − sugere Thaíse, se erguendo.
− Melhor! Vocês duas vão para a varanda e eu levo o café para nós lá.
− Ok. − respondem as duas em coro.
Vou à copa e encontro D.Rita:
− Bom dia D.Rita! A senhora poderia levar três cafezinhos para nós lá na varanda da sala de reuniões, por favor?
− Claro, vou providenciar agora mesmo! − responde D. Rita, sempre simpática.
Caminho de volta para a sala de reuniões recapitulando minha sombria estória. Mais calma, até acho um pouco de graça de tudo... Abro a porta da sala de reuniões e vejo minhas duas sócias e amigas sentadas na varanda, conversando serenamente. Penso que, afinal, é hora de me divertir um pouco com esse episódio maluco. Começo a imaginar como vou ser sacaneada pelas duas e me animo um pouco. Passo pela mesa oval, me encaminhando à varanda e vou logo dizendo:
− Meninas! Vocês têm que ouvir o que aconteceu comigo essa manhã! Cara, vocês não vão acreditar...
Paro abruptamente, chocada! As pernas tremem, amolecem, sinto que vou desmaiar... Apóio-me na porta que separa a varanda da sala, para não cair. No canteiro de flores, ele: o mico. Parado dentro dos arbustos, quietinho, com os olhos fixos em mim.
− O que foi? O que você tem? Tá passando mal? − pergunta Karen, preocupada.
− Fala, mulher! Quer matar a gente do coração!?
Pego, alucinada, um cinzeiro de vidro de cima da mesa de reuniões e jogo na direção do pequeno animal, gritando:
− SAI! SAI DAQUI! O QUE VOCÊ QUER COMIGO? ME DEIXA EM PAZ!
O bicho somente se move delicadamente para o lado para escapar do cinzeiro voador e continua a me fitar de maneira obstinada e assustadoramente serena, quase doce. Minhas amigas, aflitas, sem entender nada, procuram no canteiro a razão do meu surto.
− O quê que tá acontecendo? −perguntam, sem entender.
Como num golpe ninja, puxo dramaticamente minhas amigas para dentro da sala de reuniões, fechando a porta da varanda com um forte pontapé. Na inércia do movimento, instantaneamente o golpe nipônico se transforma numa mexicana trapalhada à lá Chapolin Colorado: batemos as três na pobre da D.Rita que vinha atrás sem saber de nada, carregando sua bandeja de café com biscoitinhos, tão primorosamente preparada para nós. Tudo vai para o chão: eu, minhas sócias, D. Rita, bandeja... Só escapou o café, que espantosamente caiu todo sobre nós, não sobrando nem uma gota para o velho carpete cinza da sala de reuniões. Levanto-me com fúria e fecho as cortinas por sobre a parede de vidro, tampando totalmente a visão da varanda e, principalmente, do mico.
***
− Quer dizer que tudo isso foi por causa de um macaquinho? − inquire Thaíse, perplexa.
− Tá ficando louca, mulher? − esbraveja Karen, impaciente.
Bebo mais um gole da água com açúcar que D.Rita, a mais “encafézada” e compadecida com meu estado, me serviu.
− Mas esse bicho te atacou? Ele te mordeu? O que ele fez exatamente? − pergunta Thaíse, a mais paciente, como numa sessão de terapia.
− Ele não fez nada, nada. Só está me seguindo desde as 7 horas da manhã que nem um psicopata!... − respondo meio nervosa. − Ficou me seguindo no parque, foi até o meu carro, depois, não sei como, apareceu no banheiro lá de casa, na janelinha... e agora aqui, a quilômetros de distância daquele maldito parque!!!! ELE QUER ME ENLOUQUECER!!!!
− Calma, calma, menina... − disse D.Rita, segurando a cortina e olhando através do vidro. − É só um sagüi, é um macaquinho muito comum nessa região. É inofensivo.
As duas amigas se apressaram em ver a fera que tinha me colocado doida a poucos instantes.
− É só isso? Um bichinho desse tamanho? Ah, tenha a santa paciência! − continua esbravejando Karen, ressentida do susto que levou.
− Você deve estar estressada, porque não tira uns dias? − disse Thaíse, tentando não me magoar e olhando aborrecida para Karen.
− É, pode ser... − digo sem jeito com a incompreensão de minhas amigas e com a insignificância daquela bola de pêlos detestável. − Deve ser essa negociação com esses fornecedores de São Paulo, tá meio difícil, é muita pressão...
− É! − disse Thaíse, se esforçando para ser tolerante com minha paranóia. − Tira uns dias, amiga. A reunião é só semana que vem, e não tem mais nada de muito importante por aqui até lá. Pode ir tranqüila que nós tomamos conta de tudo.
− Não, não, gente, eu tô bem! − digo, num salto. − Olha, já passou! Eu tô calma, calminha... Já passou...
Levanto-me e abro as cortinas num movimento largo, querendo demonstrar autodomínio e superação, e me deparo com o monstro quase cara a cara comigo, do outro lado do vidro, agarrado na maçaneta da porta de vidro, me olhando calmamente. É impossível conter o grito de susto. E também as outras três gritam numa solidariedade medonha. Fecho a cortina, descontrolada e corro para o outro lado da sala de reuniões.
− É, quem sabe alguns dias, para relaxar...
***
Na portaria do prédio, com as amigas me consolando, me controlo para não demonstrar o medo que estou sentindo e a vontade de olhar para todos os lados procurando o primata dos infernos. Sinto-me ao mesmo tempo amedrontada por não conseguir entender o comportamento desse bicho, envergonhada diante das meninas pelas circunstâncias inexplicáveis, e muito, mas muito irritada mesmo, por não conseguir me equilibrar, ter o controle da situação.
Os conselhos bem intencionados das duas ficam como uma música de fundo para as lembranças dos encontros horripilantes com esse verme peludo asqueroso, desgraçado, nojento, se eu te pego...
−Tá ouvido, mulher? − a voz de Karen me acorda de minha reflexão íntima.
− Ah? Tô, tô, claro! Só fiquei um pouco cansada com tudo isso...
− Olha, eu sei que hoje você tem uma hora com o maravilhoso Paulinho no salão do Centro... − exclama Karen, agora tentando ser mais gentil.
− Ah, ele é um amor! − se empolga Thaíse. − Minha filha, aproveita para relaxar... e ficar linda!
− É! − completa Karen, solícita. − Porque você não faz aquela massagem relaxante com a Cidinha, ela é ótima!
− É, quem sabe... − digo, olhando o mais disfarçadamente possível ao redor, procurando o diabinho... − Eu vou ficar bem, não se preocupem...
Entro no carro.
− Qualquer coisa, liga. − diz Thaíse, com um olhar maternal e compadecido.
− Pode deixar. − digo.
Saio, cantando os pneus, querendo me livrar logo daquela chateação. Nem posso reparar no susto das duas ao perceberem, agachadinho, junto ao meio fio, o pequeno sagüi a olhar fixamente para o carro, acompanhando-o com sua cabecinha e logo em seguida partindo em disparada ao encalço.
***
− Ai, Paulinho! − digo com voz de criança mimada. − Eu tive uma manhã péééssima e tô precisando ser muito bem tratada!
− Você está no lugar certo, minha querida! − diz o cabeleireiro, me abraçando delicadamente. − Mas o que aconteceu? Algum bofe safado maltratou o meu docinho?
− Antes fosse, querido... − digo, me lembrando rapidamente do meu último encontro, há seis meses atrás (um desastre!), e logo em seguida do macaco. − Mas vamos falar de coisas alegres? Tô precisando mesmo me distrair, relaxar...
− LLLLÓÓÓgico, honey! − ele fala enrolando e exagerando no “L”. − Já vou providenciar para você uma massagem daquelas com a Cidinha. CIDINHAAAA!!!! − grita com estardalhaço. − CIDINHAAAAAA!!!
− Oi! − Responde a moça.
− Santa, prepara uma massagem daqueeeeelas pra nossa amiga aqui, que ela tá necessitada, coitada. − diz Paulinho, fazendo beicinho.
− “Pó’dexá”! Responde a moça, saindo e me dando uma piscadinha simpática.
− Mas antes, o que vai ser? Corte, retocar as mechas, hidratação, escova, depilação, limpeza facial, sobrancelha, pé e mão? − ele enumera as atividades sem tomar fôlego.
− É, hoje vou ficar só no básico mesmo... − respondo com um ar blasé.
− OOOOOKKKK!!!! − ele diz isso dando um rodopio. − Vamos até ali lavar o seu cabelo, fofa?
Com uma toalhinha cheirando a barata nos ombros, vou com o Paulinho até um cantinho onde fica o lavatório, já bem mais tranqüila. É, acho que agora esse pesadelo de ser perseguida por um sagüi maluco acabou... alívio. Olho pro teto como que agradecendo aos céus.
Quando abaixo a cabeça para ver onde o cabeleireiro quer que eu me sente, paraliso.
− OOOOOOOOOOlha! − grita exagerado o Paulinho. − Que gracinha! Um macaquinho sentado na cadeira do lavatório! Venham ver, meninas!!!
Todo mundo se levanta para ver o seboso, que fica tranqüilamente me encarando, com aquela cara fingida de doçura irracional.
O salão em peso está babando o ridículo e nesse momento, o meu medo vai dando lugar a um ódio avassalador.
− E olha! Ele não pára de olhar para você! − diz Paulinho, se voltando para mim, divertido.
Num ímpeto de coragem e raiva ensandecida, arranco um secador da tomada e arremesso com toda a força na direção do macaco. Todas gritam, é um Deus nos acuda no salão. O bicho sai correndo, parando no balcão do caixa e se posicionando delicadamente de frente para mim, tornando a me encarar, irritantemente meigo.
Sai voando em sua direção o que eu encontro pela frente: tesoura, escovas de cabelo, revistas, bolsas, potes de creme, tudo. E ele sempre escapando e se posicionando amorosamente voltado para mim, o que partia o coração de todo mundo ali.
− Coitadinho! Diziam as velhinhas.
− Não faça isso com o bichinho, sua malvada! − diziam as mocinhas.
− Meu salão, meu salão!!!! Chorava o Paulinho...
***
− E foi isso, mamãe! O Paulinho me expulsou do salão dele, aos prantos, como se eu fosse o seu namorado e o tivesse traído com um gostosão sarado. Estou descabelada, com a sobrancelha parecendo um espanador, totalmente tensa e tão peluda quanto esse demônio das selvas. − disse enquanto comia, esganiçada. A ansiedade tinha aumentado meu apetite.
Minha mãe estava boquiaberta:
− Mas que estória fantástica é essa? − perguntava minha mãe assombrada. − Você está falando sério? Ou é mais uma daquelas suas brincadeiras sem graça que eu acredito e viro chacota para todo mundo depois?...
− Não, é sério, mamãe! − engulo uma rodela de tomate e continuo com a boca cheia:
− Pode perguntar pra D. Graça, pras meninas lá da empresa, pro Paulinho... − engulo mais uma garfada de comida. − Esse filho da égua tá me perseguindo mesmo. Ou melhor, FILHO DE UMA MACACA FEDORENTA! − digo bem alto como que pra provocar o sagüi, no caso de ele está por alí.
− Shiii! Você está louca? − minha mãe abaixa a cabeça de vergonha enquanto todos do restaurante olham para nossa mesa.
− É só a senhora ter um pouco de paciência e logo, logo ele vai aparecer, ESSE DESOCUPADO CATADOR DE PIOLHO! − repito o tom de provocação.
− Shiii! Você quer levar umas palmadas aqui na frente de todo mundo?! − me repreende entre dentes. − Onde já se viu? Foi essa a educação que eu te dei?
Contive-me e terminei minha refeição. Ficamos caladas. Minha mãe não quis mais comer. Pedi um café e a conta e avistei o idiota na janela imediatamente defronte à nossa mesa. Olhei nos olhos de minha mãe com um olhar daqueles que têm a oportunidade de provar sua teoria.
− Que cara é essa, menina? − argüiu, desconfiada, minha mãe.
− Mamãe, dá uma viradinha e olha quem está aí na janela me olhando com um olhar de peixe morto!... − falei com um ar triunfal.
Ela se virou e viu, abismada, o sagüi.
− Meu Deus! Então é verdade?!
− Aha!!! “Num” disse?! − respondi saracoteando e bebendo o café.
***
− Minha filha, você não quer ficar lá em casa? Pode ser perigoso! Isso é muito esquisito! − exclama mamãe, aflita.
− Não mamãe, obrigada. Não vai adiantar, ele vai me seguir onde eu for, vou ficar aqui em casa mesmo... − respondo decidida.
− Então, você tranque todas as portas e janelas... Será que não é melhor ligar pra polícia, pros bombeiros, pro Ibama?...
− Eu vou ficar bem, não se preocupe, eu vou dar um jeito nisso...
Despachei carinhosamente minha mãe e abri a cortina da sala que ela tinha fechado (aliás, ela tinha fechado todas as cortinas e colocado lençóis onde não tinha). Sentei no sofá, tirei os sapatos e esperei. Em dois minutos lá estava ele, me olhando, sempre com aquela cara indefinida. Ficamos nos encarando por alguns minutos.
Experimentei andar pela sala. Ele me seguiu por todas as direções. Me escondi atrás do sofá. Depois de alguns minutos apareci e lá estava ele. Corri até o vidro da janela onde ele estava sentado e gritei o mais alto que pude, fiz caretas, rosnei, bati no vidro... nada. Só me olhava.
− O quê é isso, meu Deus?! − pensei alto.
O telefone tocou me tirando desse ritual macabro.
− Alô? Ah, oi, mulher! − Sento no sofá, fico olhando a bestinha cinzenta e conversando displicentemente com Thaise. − Tudo bem! O sagüi? Está aqui na minha frente, desgraçado... Não, não deu pra ficar lá no Paulinho com ele na minha cola... Sério! Me irritei com ele e o Paulinho não gostou do escândalo, me botou pra correr... Não, não sei o que vou fazer com esse imprestável grudado em mim que nem chiclete!... Nossa, nem o Paulão era grudento assim! − rimos.
− Olha, amiga, vou desligar. − continuo. − Preciso dar um jeito nessa aparência lastimável pra ir a tal missa de formatura da Lurdinha, você vai, né? Ah, vai sim, por favor!!!! Você não vai me deixar ir sozinha com o macaco!!!!
***
Na missa de formatura, me sentei bem no meio da igreja. As amigas não foram mesmo, sacanas... Estavam assustadas com a persistência do anão rabudo.
Lá pelo momento da Comunhão, percebo sua presença na janela localizada na mesma reta do meu banco. Rezo a Deus, implorando uma explicação para aquilo. Silêncio total, ao fim da música. Dentro e fora de mim.
Depois dos cumprimentos, me dirijo ao meu carro, exausta. Na frente da porta, me esperando: ele.
− Você pode me dar licença, por favor, que eu quero entrar no meu carro? −digo, irritada e superior.
Ele saiu mais para longe, mas continuou a me olhar. Entrei no carro sem entender e dei a partida. Dirigi pela avenida à beira mar sem pensar em nada, no piloto automático.
Cheguei em casa, tomei um banho, comi um resto de macarrão que tinha na geladeira e fui pra cama. Sentei-me e na janela o vi de novo... Estava lá me olhando.
− Boa noite, chato! Disse, fechando a cortina e “capotei” de cansaço.
***
Quando conheci o André, na academia (parques, nunca mais), fingi estar surpresa com a presença “adorável” e inusitada daquele lindo espécime primata das matas brasileiras. Já no terceiro encontro ficou difícil disfarçar minha raiva e segurar o reflexo natural que me impulsionava a QUERER EXTRANGULAR AQUELE FILHO DA MÃE INTROMETIDO!!! Até o pedido oficial de namoro fiz o possível e o impossível para impedir que André o visse.
Em nossa primeira viagem juntos, um mês depois do início do nosso namoro, tive uma longa conversa com meu amado que começou assim:
− André, tem uma coisa sobre mim que você não sabe. É uma coisa muito séria e, se eu não te contei até agora, foi por medo de te perder. Mas eu te amo muito e acho que você não merece ser enganado por nem mais um segundo. André, − respirei fundo − Há 3 anos, sete meses e 25 dias, eu tenho sido perseguida por um sagüi dia e noite, em todo lugar que eu vá. É!... Aquele que você viu nos nossos três primeiros encontros!
E acabou assim, entre lágrimas:
− E se você não quiser mais ficar comigo por causa disso, eu vou entender, mas eu quero que você saiba que você foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida! UUUÁÁÁÁ´!!!!!! − mais lágrimas...
Felizmente, depois de um ter mostrado o mico umas vinte vezes para ele, em lugares diferentes, e ele ter se convencido de que tudo que eu tinha confessado era a mais pura verdade, nosso amor não foi abalado.
***
Na festa de nosso casamento, adivinha quem pegou o buquê?
− ENXERIDO! FORA DAQUI! − gritava, sem controle.
− Calma, querida! − André tentava me acalmar − Não vai estragar a nossa festa por causa de um vira-lata penetra de festas e de vidas, de um “FORÇA AMIZADE” REPUGANTE E FEDORENTO... − por fim se unindo à minha indignação.
−Tudo bem, tudo bem, querido! Você tem razão! Não vou estragar a nossa festa por causa dele... − disse segurando-o.
***
− Enfim, sós!
− Sós, nada! Fecha a cortina pra não dá gostinho pra esse voyeur de uma figa!
***
As três vezes na maternidade:
− Nós precisamos do quarto com a tela, por favor! Aquele do vidro fumê!
***
Na reunião pedagógica das meninas...
***
Em todos os dias das mães, dos pais, aniversários, páscoas, natais, reveillons...
***
Viagens para onde quer que fossemos...
***
E também em dias de semana, finais de semana, feriados... Todos os dias, em todos os lugares.
***
Nas formaturas das meninas, em seus casamentos, nos nascimentos dos netos...
***
Na aposentadoria, na viuvez!...
***
Chego em casa depois da missa. Quem está na porta?
− Você pode me dar licença, por favor, que eu quero entrar na minha casa, animal senil e asqueroso?
Ele saiu mais para longe, mas continuou a me olhar, como de costume.
− Porque você não morre logo e me deixa passar meus últimos dias livre e feliz, seu velho peludo e fedorento?
Entro em casa irritada e vou direto pro quarto.
− A cada ano que passa esse quarto parece estar maior... − digo, olhando ao redor. − Essa cama parece estar maior... Os anos, os meses, os dias parecem estar maior... Só quem não parece nunca estar maior é você, nanico esclerosado e patético! − completo num tom maldoso.
Olho a janela e ele ainda não está lá...
− Ou sou eu que estou encolhendo cada vez mais? − penso. − Ai minhas costas! Esse reumatismo... E piorou ainda mais depois que eu tentei te dar aquela vassourada, heim, seu rato do nariz chato!
Olho novamente a janela e nada dele aparecer. Tiro meus óculos, minha prótese dentária...
− Cadê você, pigmeu com orelhão?... Está tão velho que não consegue mais subir na janela pra ficar me atormentando como antigamente?
Ainda nada. Olho fixamente a janela por alguns minutos, meu coração começa a acelerar, nó na garganta.
− Cadê? Será que... − penso, tentando conter a ansiedade.
De repente, ele aparece, e fica me olhando. Uma controversa sensação de alívio. Sento-me na cama e o vejo de novo na janela... Continua lá, sempre me olhando.
− Boa noite, chato! − despeço-me como em todas as noites, em 54 anos.
Fecho a cortina e me deito.
− Boa noite... − repito, já quase dormindo.
Distraí-me novamente pensando em minha agenda: reunião na empresa, salão de beleza, almoço com a mamãe, de volta para a empresa, missa de formatura da Lurdinha... Chego ao carro. Será que o macaquinho desistiu de mim? Abrindo a porta, dou uma olhada para a cerca que ficou já ao longe. Espremo os olhos, procurando. Nada. Vou tirando o tênis antes de entrar no carro e não posso conter o grito de espanto: o pequeno primata está bem ali, aos meus pés, me olhando calmamente.
– Sai, sai!!
Ele nem se move. Entro no carro, apressada, com medo.
– Calma, calma, mulher! Respira! É só um mico maluco, talvez queira comida... Ele nem tá fazendo nada, ta só aí, olhando, quietinho... – Olho de novo para o meio fio e ele está lá, parado, me olhando. – Eu heim? Tchau, bichinho, fique aí, coisinha esquisita...
Dou a partida no carro e saio do parque, ainda assustada com o acontecimento inusitado... Credo... Bicho esquisito... De repente penso:
– Será que era o mesmo macaco? Sei lá, poderia ser outro, o parque é do lado de uma reserva ambiental, lá deve ter milhares daqueles... – Começo a rir de mim mesma e do meu ataque de pânico causado por inocentes macaquinhos.
***
Tiro a roupa de ginástica suada pelo exercício, coloco dentro do cesto de roupa e começo a repassar mentalmente minha agenda. Entro no box e me apresso no banho para não me atrasar. Sabonete, bucha, ok... Xampu, no batente da janelinha, mas o quê que é isso do lado de fora? Ai, meu Deus, não pode ser... O macaquinho!
Deixo o xampu cair e saio correndo do banheiro, gritando. D. Graça vem apressada:
− Qui foi, minina?!
− D.Graça! Tem um mico, tem um mico na janela do meu banheiro!
− Um micu? Dex’o vê... É vredadi, qui gracinha!... Carma, minina, carma... Eli tá du lado di fora da janela i ela tá trancada! Pruque cê tá cum medu? Eli tá quetim, só ti oianu...
Contei a estória do parque para D. Graça, tentando me controlar e disfarçar meu pavor com isso tudo.
− Credo, minina! Qui coisa isquisita! Isso tá pareceno trabaio feito...
− Quê isso, D. Graça, eu não acredito nessas coisas não!
− Termina seu banhu!...
− Não tenho mais tempo. Esse mico filho da mãe acabou me atrasando.
Acabo de me vestir apressadamente e entro no banheiro para pegar um pente e prender o cabelo. O mico ainda está lá na janelinha, me olhando. Mas só me faltava essa! Esse mico gamou em mim...
***
− Gente, me desculpem o atraso, se vocês soubessem o que me aconteceu hoje...
− Tudo bem, tudo bem, a reunião foi cancelada mesmo... − retruca distraidamente uma das minhas sócias, Karen, enquanto a outra, Thaíse, responde tranqüilamente seus e-mails.
− Por quê? − pergunto frustrada depois de todo o esforço feito para chegar a tempo.
− Os fornecedores tiveram um atraso na produção e ligaram ontem, logo depois que você saiu, marcando um encontro para semana que vem. Mas o que você tem, mulher? Parece abatida! − pergunta Thaíse, só agora tirando os olhos da tela do computador e reparando meu estado.
− É, fui fazer uma caminhada no parque, me atrasei em casa e não tive tempo de comer nada! Estou com fome e muito nervosa... Que horas são?
− Vai dar nove horas. Vamos tomar um cafezinho na copa e você conta o que aconteceu. − sugere Thaíse, se erguendo.
− Melhor! Vocês duas vão para a varanda e eu levo o café para nós lá.
− Ok. − respondem as duas em coro.
Vou à copa e encontro D.Rita:
− Bom dia D.Rita! A senhora poderia levar três cafezinhos para nós lá na varanda da sala de reuniões, por favor?
− Claro, vou providenciar agora mesmo! − responde D. Rita, sempre simpática.
Caminho de volta para a sala de reuniões recapitulando minha sombria estória. Mais calma, até acho um pouco de graça de tudo... Abro a porta da sala de reuniões e vejo minhas duas sócias e amigas sentadas na varanda, conversando serenamente. Penso que, afinal, é hora de me divertir um pouco com esse episódio maluco. Começo a imaginar como vou ser sacaneada pelas duas e me animo um pouco. Passo pela mesa oval, me encaminhando à varanda e vou logo dizendo:
− Meninas! Vocês têm que ouvir o que aconteceu comigo essa manhã! Cara, vocês não vão acreditar...
Paro abruptamente, chocada! As pernas tremem, amolecem, sinto que vou desmaiar... Apóio-me na porta que separa a varanda da sala, para não cair. No canteiro de flores, ele: o mico. Parado dentro dos arbustos, quietinho, com os olhos fixos em mim.
− O que foi? O que você tem? Tá passando mal? − pergunta Karen, preocupada.
− Fala, mulher! Quer matar a gente do coração!?
Pego, alucinada, um cinzeiro de vidro de cima da mesa de reuniões e jogo na direção do pequeno animal, gritando:
− SAI! SAI DAQUI! O QUE VOCÊ QUER COMIGO? ME DEIXA EM PAZ!
O bicho somente se move delicadamente para o lado para escapar do cinzeiro voador e continua a me fitar de maneira obstinada e assustadoramente serena, quase doce. Minhas amigas, aflitas, sem entender nada, procuram no canteiro a razão do meu surto.
− O quê que tá acontecendo? −perguntam, sem entender.
Como num golpe ninja, puxo dramaticamente minhas amigas para dentro da sala de reuniões, fechando a porta da varanda com um forte pontapé. Na inércia do movimento, instantaneamente o golpe nipônico se transforma numa mexicana trapalhada à lá Chapolin Colorado: batemos as três na pobre da D.Rita que vinha atrás sem saber de nada, carregando sua bandeja de café com biscoitinhos, tão primorosamente preparada para nós. Tudo vai para o chão: eu, minhas sócias, D. Rita, bandeja... Só escapou o café, que espantosamente caiu todo sobre nós, não sobrando nem uma gota para o velho carpete cinza da sala de reuniões. Levanto-me com fúria e fecho as cortinas por sobre a parede de vidro, tampando totalmente a visão da varanda e, principalmente, do mico.
***
− Quer dizer que tudo isso foi por causa de um macaquinho? − inquire Thaíse, perplexa.
− Tá ficando louca, mulher? − esbraveja Karen, impaciente.
Bebo mais um gole da água com açúcar que D.Rita, a mais “encafézada” e compadecida com meu estado, me serviu.
− Mas esse bicho te atacou? Ele te mordeu? O que ele fez exatamente? − pergunta Thaíse, a mais paciente, como numa sessão de terapia.
− Ele não fez nada, nada. Só está me seguindo desde as 7 horas da manhã que nem um psicopata!... − respondo meio nervosa. − Ficou me seguindo no parque, foi até o meu carro, depois, não sei como, apareceu no banheiro lá de casa, na janelinha... e agora aqui, a quilômetros de distância daquele maldito parque!!!! ELE QUER ME ENLOUQUECER!!!!
− Calma, calma, menina... − disse D.Rita, segurando a cortina e olhando através do vidro. − É só um sagüi, é um macaquinho muito comum nessa região. É inofensivo.
As duas amigas se apressaram em ver a fera que tinha me colocado doida a poucos instantes.
− É só isso? Um bichinho desse tamanho? Ah, tenha a santa paciência! − continua esbravejando Karen, ressentida do susto que levou.
− Você deve estar estressada, porque não tira uns dias? − disse Thaíse, tentando não me magoar e olhando aborrecida para Karen.
− É, pode ser... − digo sem jeito com a incompreensão de minhas amigas e com a insignificância daquela bola de pêlos detestável. − Deve ser essa negociação com esses fornecedores de São Paulo, tá meio difícil, é muita pressão...
− É! − disse Thaíse, se esforçando para ser tolerante com minha paranóia. − Tira uns dias, amiga. A reunião é só semana que vem, e não tem mais nada de muito importante por aqui até lá. Pode ir tranqüila que nós tomamos conta de tudo.
− Não, não, gente, eu tô bem! − digo, num salto. − Olha, já passou! Eu tô calma, calminha... Já passou...
Levanto-me e abro as cortinas num movimento largo, querendo demonstrar autodomínio e superação, e me deparo com o monstro quase cara a cara comigo, do outro lado do vidro, agarrado na maçaneta da porta de vidro, me olhando calmamente. É impossível conter o grito de susto. E também as outras três gritam numa solidariedade medonha. Fecho a cortina, descontrolada e corro para o outro lado da sala de reuniões.
− É, quem sabe alguns dias, para relaxar...
***
Na portaria do prédio, com as amigas me consolando, me controlo para não demonstrar o medo que estou sentindo e a vontade de olhar para todos os lados procurando o primata dos infernos. Sinto-me ao mesmo tempo amedrontada por não conseguir entender o comportamento desse bicho, envergonhada diante das meninas pelas circunstâncias inexplicáveis, e muito, mas muito irritada mesmo, por não conseguir me equilibrar, ter o controle da situação.
Os conselhos bem intencionados das duas ficam como uma música de fundo para as lembranças dos encontros horripilantes com esse verme peludo asqueroso, desgraçado, nojento, se eu te pego...
−Tá ouvido, mulher? − a voz de Karen me acorda de minha reflexão íntima.
− Ah? Tô, tô, claro! Só fiquei um pouco cansada com tudo isso...
− Olha, eu sei que hoje você tem uma hora com o maravilhoso Paulinho no salão do Centro... − exclama Karen, agora tentando ser mais gentil.
− Ah, ele é um amor! − se empolga Thaíse. − Minha filha, aproveita para relaxar... e ficar linda!
− É! − completa Karen, solícita. − Porque você não faz aquela massagem relaxante com a Cidinha, ela é ótima!
− É, quem sabe... − digo, olhando o mais disfarçadamente possível ao redor, procurando o diabinho... − Eu vou ficar bem, não se preocupem...
Entro no carro.
− Qualquer coisa, liga. − diz Thaíse, com um olhar maternal e compadecido.
− Pode deixar. − digo.
Saio, cantando os pneus, querendo me livrar logo daquela chateação. Nem posso reparar no susto das duas ao perceberem, agachadinho, junto ao meio fio, o pequeno sagüi a olhar fixamente para o carro, acompanhando-o com sua cabecinha e logo em seguida partindo em disparada ao encalço.
***
− Ai, Paulinho! − digo com voz de criança mimada. − Eu tive uma manhã péééssima e tô precisando ser muito bem tratada!
− Você está no lugar certo, minha querida! − diz o cabeleireiro, me abraçando delicadamente. − Mas o que aconteceu? Algum bofe safado maltratou o meu docinho?
− Antes fosse, querido... − digo, me lembrando rapidamente do meu último encontro, há seis meses atrás (um desastre!), e logo em seguida do macaco. − Mas vamos falar de coisas alegres? Tô precisando mesmo me distrair, relaxar...
− LLLLÓÓÓgico, honey! − ele fala enrolando e exagerando no “L”. − Já vou providenciar para você uma massagem daquelas com a Cidinha. CIDINHAAAA!!!! − grita com estardalhaço. − CIDINHAAAAAA!!!
− Oi! − Responde a moça.
− Santa, prepara uma massagem daqueeeeelas pra nossa amiga aqui, que ela tá necessitada, coitada. − diz Paulinho, fazendo beicinho.
− “Pó’dexá”! Responde a moça, saindo e me dando uma piscadinha simpática.
− Mas antes, o que vai ser? Corte, retocar as mechas, hidratação, escova, depilação, limpeza facial, sobrancelha, pé e mão? − ele enumera as atividades sem tomar fôlego.
− É, hoje vou ficar só no básico mesmo... − respondo com um ar blasé.
− OOOOOKKKK!!!! − ele diz isso dando um rodopio. − Vamos até ali lavar o seu cabelo, fofa?
Com uma toalhinha cheirando a barata nos ombros, vou com o Paulinho até um cantinho onde fica o lavatório, já bem mais tranqüila. É, acho que agora esse pesadelo de ser perseguida por um sagüi maluco acabou... alívio. Olho pro teto como que agradecendo aos céus.
Quando abaixo a cabeça para ver onde o cabeleireiro quer que eu me sente, paraliso.
− OOOOOOOOOOlha! − grita exagerado o Paulinho. − Que gracinha! Um macaquinho sentado na cadeira do lavatório! Venham ver, meninas!!!
Todo mundo se levanta para ver o seboso, que fica tranqüilamente me encarando, com aquela cara fingida de doçura irracional.
O salão em peso está babando o ridículo e nesse momento, o meu medo vai dando lugar a um ódio avassalador.
− E olha! Ele não pára de olhar para você! − diz Paulinho, se voltando para mim, divertido.
Num ímpeto de coragem e raiva ensandecida, arranco um secador da tomada e arremesso com toda a força na direção do macaco. Todas gritam, é um Deus nos acuda no salão. O bicho sai correndo, parando no balcão do caixa e se posicionando delicadamente de frente para mim, tornando a me encarar, irritantemente meigo.
Sai voando em sua direção o que eu encontro pela frente: tesoura, escovas de cabelo, revistas, bolsas, potes de creme, tudo. E ele sempre escapando e se posicionando amorosamente voltado para mim, o que partia o coração de todo mundo ali.
− Coitadinho! Diziam as velhinhas.
− Não faça isso com o bichinho, sua malvada! − diziam as mocinhas.
− Meu salão, meu salão!!!! Chorava o Paulinho...
***
− E foi isso, mamãe! O Paulinho me expulsou do salão dele, aos prantos, como se eu fosse o seu namorado e o tivesse traído com um gostosão sarado. Estou descabelada, com a sobrancelha parecendo um espanador, totalmente tensa e tão peluda quanto esse demônio das selvas. − disse enquanto comia, esganiçada. A ansiedade tinha aumentado meu apetite.
Minha mãe estava boquiaberta:
− Mas que estória fantástica é essa? − perguntava minha mãe assombrada. − Você está falando sério? Ou é mais uma daquelas suas brincadeiras sem graça que eu acredito e viro chacota para todo mundo depois?...
− Não, é sério, mamãe! − engulo uma rodela de tomate e continuo com a boca cheia:
− Pode perguntar pra D. Graça, pras meninas lá da empresa, pro Paulinho... − engulo mais uma garfada de comida. − Esse filho da égua tá me perseguindo mesmo. Ou melhor, FILHO DE UMA MACACA FEDORENTA! − digo bem alto como que pra provocar o sagüi, no caso de ele está por alí.
− Shiii! Você está louca? − minha mãe abaixa a cabeça de vergonha enquanto todos do restaurante olham para nossa mesa.
− É só a senhora ter um pouco de paciência e logo, logo ele vai aparecer, ESSE DESOCUPADO CATADOR DE PIOLHO! − repito o tom de provocação.
− Shiii! Você quer levar umas palmadas aqui na frente de todo mundo?! − me repreende entre dentes. − Onde já se viu? Foi essa a educação que eu te dei?
Contive-me e terminei minha refeição. Ficamos caladas. Minha mãe não quis mais comer. Pedi um café e a conta e avistei o idiota na janela imediatamente defronte à nossa mesa. Olhei nos olhos de minha mãe com um olhar daqueles que têm a oportunidade de provar sua teoria.
− Que cara é essa, menina? − argüiu, desconfiada, minha mãe.
− Mamãe, dá uma viradinha e olha quem está aí na janela me olhando com um olhar de peixe morto!... − falei com um ar triunfal.
Ela se virou e viu, abismada, o sagüi.
− Meu Deus! Então é verdade?!
− Aha!!! “Num” disse?! − respondi saracoteando e bebendo o café.
***
− Minha filha, você não quer ficar lá em casa? Pode ser perigoso! Isso é muito esquisito! − exclama mamãe, aflita.
− Não mamãe, obrigada. Não vai adiantar, ele vai me seguir onde eu for, vou ficar aqui em casa mesmo... − respondo decidida.
− Então, você tranque todas as portas e janelas... Será que não é melhor ligar pra polícia, pros bombeiros, pro Ibama?...
− Eu vou ficar bem, não se preocupe, eu vou dar um jeito nisso...
Despachei carinhosamente minha mãe e abri a cortina da sala que ela tinha fechado (aliás, ela tinha fechado todas as cortinas e colocado lençóis onde não tinha). Sentei no sofá, tirei os sapatos e esperei. Em dois minutos lá estava ele, me olhando, sempre com aquela cara indefinida. Ficamos nos encarando por alguns minutos.
Experimentei andar pela sala. Ele me seguiu por todas as direções. Me escondi atrás do sofá. Depois de alguns minutos apareci e lá estava ele. Corri até o vidro da janela onde ele estava sentado e gritei o mais alto que pude, fiz caretas, rosnei, bati no vidro... nada. Só me olhava.
− O quê é isso, meu Deus?! − pensei alto.
O telefone tocou me tirando desse ritual macabro.
− Alô? Ah, oi, mulher! − Sento no sofá, fico olhando a bestinha cinzenta e conversando displicentemente com Thaise. − Tudo bem! O sagüi? Está aqui na minha frente, desgraçado... Não, não deu pra ficar lá no Paulinho com ele na minha cola... Sério! Me irritei com ele e o Paulinho não gostou do escândalo, me botou pra correr... Não, não sei o que vou fazer com esse imprestável grudado em mim que nem chiclete!... Nossa, nem o Paulão era grudento assim! − rimos.
− Olha, amiga, vou desligar. − continuo. − Preciso dar um jeito nessa aparência lastimável pra ir a tal missa de formatura da Lurdinha, você vai, né? Ah, vai sim, por favor!!!! Você não vai me deixar ir sozinha com o macaco!!!!
***
Na missa de formatura, me sentei bem no meio da igreja. As amigas não foram mesmo, sacanas... Estavam assustadas com a persistência do anão rabudo.
Lá pelo momento da Comunhão, percebo sua presença na janela localizada na mesma reta do meu banco. Rezo a Deus, implorando uma explicação para aquilo. Silêncio total, ao fim da música. Dentro e fora de mim.
Depois dos cumprimentos, me dirijo ao meu carro, exausta. Na frente da porta, me esperando: ele.
− Você pode me dar licença, por favor, que eu quero entrar no meu carro? −digo, irritada e superior.
Ele saiu mais para longe, mas continuou a me olhar. Entrei no carro sem entender e dei a partida. Dirigi pela avenida à beira mar sem pensar em nada, no piloto automático.
Cheguei em casa, tomei um banho, comi um resto de macarrão que tinha na geladeira e fui pra cama. Sentei-me e na janela o vi de novo... Estava lá me olhando.
− Boa noite, chato! Disse, fechando a cortina e “capotei” de cansaço.
***
Quando conheci o André, na academia (parques, nunca mais), fingi estar surpresa com a presença “adorável” e inusitada daquele lindo espécime primata das matas brasileiras. Já no terceiro encontro ficou difícil disfarçar minha raiva e segurar o reflexo natural que me impulsionava a QUERER EXTRANGULAR AQUELE FILHO DA MÃE INTROMETIDO!!! Até o pedido oficial de namoro fiz o possível e o impossível para impedir que André o visse.
Em nossa primeira viagem juntos, um mês depois do início do nosso namoro, tive uma longa conversa com meu amado que começou assim:
− André, tem uma coisa sobre mim que você não sabe. É uma coisa muito séria e, se eu não te contei até agora, foi por medo de te perder. Mas eu te amo muito e acho que você não merece ser enganado por nem mais um segundo. André, − respirei fundo − Há 3 anos, sete meses e 25 dias, eu tenho sido perseguida por um sagüi dia e noite, em todo lugar que eu vá. É!... Aquele que você viu nos nossos três primeiros encontros!
E acabou assim, entre lágrimas:
− E se você não quiser mais ficar comigo por causa disso, eu vou entender, mas eu quero que você saiba que você foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida! UUUÁÁÁÁ´!!!!!! − mais lágrimas...
Felizmente, depois de um ter mostrado o mico umas vinte vezes para ele, em lugares diferentes, e ele ter se convencido de que tudo que eu tinha confessado era a mais pura verdade, nosso amor não foi abalado.
***
Na festa de nosso casamento, adivinha quem pegou o buquê?
− ENXERIDO! FORA DAQUI! − gritava, sem controle.
− Calma, querida! − André tentava me acalmar − Não vai estragar a nossa festa por causa de um vira-lata penetra de festas e de vidas, de um “FORÇA AMIZADE” REPUGANTE E FEDORENTO... − por fim se unindo à minha indignação.
−Tudo bem, tudo bem, querido! Você tem razão! Não vou estragar a nossa festa por causa dele... − disse segurando-o.
***
− Enfim, sós!
− Sós, nada! Fecha a cortina pra não dá gostinho pra esse voyeur de uma figa!
***
As três vezes na maternidade:
− Nós precisamos do quarto com a tela, por favor! Aquele do vidro fumê!
***
Na reunião pedagógica das meninas...
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Em todos os dias das mães, dos pais, aniversários, páscoas, natais, reveillons...
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Viagens para onde quer que fossemos...
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E também em dias de semana, finais de semana, feriados... Todos os dias, em todos os lugares.
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Nas formaturas das meninas, em seus casamentos, nos nascimentos dos netos...
***
Na aposentadoria, na viuvez!...
***
Chego em casa depois da missa. Quem está na porta?
− Você pode me dar licença, por favor, que eu quero entrar na minha casa, animal senil e asqueroso?
Ele saiu mais para longe, mas continuou a me olhar, como de costume.
− Porque você não morre logo e me deixa passar meus últimos dias livre e feliz, seu velho peludo e fedorento?
Entro em casa irritada e vou direto pro quarto.
− A cada ano que passa esse quarto parece estar maior... − digo, olhando ao redor. − Essa cama parece estar maior... Os anos, os meses, os dias parecem estar maior... Só quem não parece nunca estar maior é você, nanico esclerosado e patético! − completo num tom maldoso.
Olho a janela e ele ainda não está lá...
− Ou sou eu que estou encolhendo cada vez mais? − penso. − Ai minhas costas! Esse reumatismo... E piorou ainda mais depois que eu tentei te dar aquela vassourada, heim, seu rato do nariz chato!
Olho novamente a janela e nada dele aparecer. Tiro meus óculos, minha prótese dentária...
− Cadê você, pigmeu com orelhão?... Está tão velho que não consegue mais subir na janela pra ficar me atormentando como antigamente?
Ainda nada. Olho fixamente a janela por alguns minutos, meu coração começa a acelerar, nó na garganta.
− Cadê? Será que... − penso, tentando conter a ansiedade.
De repente, ele aparece, e fica me olhando. Uma controversa sensação de alívio. Sento-me na cama e o vejo de novo na janela... Continua lá, sempre me olhando.
− Boa noite, chato! − despeço-me como em todas as noites, em 54 anos.
Fecho a cortina e me deito.
− Boa noite... − repito, já quase dormindo.

Ola Manu, estava navegando e viajando pela net quando encontrei você e achei muito familiar. Meu nome é Manuela Cabral e tenho 29 anos, mas sou brasileira. Mto prazer em te conhecer, seu blog é maravilhoso. Parabéns.
ResponderExcluirabs, Manuela
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