quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Jota e a barata flambada

Toda a nossa família e amigos conhecem os famosos dotes culinários de Jota, meu marido. Ele faz um peixe que é famoso, desde a época de sua juventude, e com o passar dos anos, foi só se sofisticando mais. Houve até  uma vez em que ele fez um jantar chiquérimo para a família toda, com entrada, prato principal e sobremesa. Ninguém nunca conseguiu superar aquele sorvete caseiro com bananas flambadas do Jota! Foi assunto das reuniões familiares por muitos e muitos anos. Surgiram até quem o incentivasse a largar tudo e se dedicar a gastronomia, mas ele dizia com modéstia estampada (e orgulho disfarçado) que não era pra tanto... 
Também é conhecida de todos a fobia que Jota tem de baratas. Ele sempre lutou muito contra isso, mas com o passar dos anos, foi só ficando mais incontrolável. Quantas e quantas vezes tive que salvar o Jota de cima das cadeiras, gritando por socorro, enquanto a barata fugia assustada. Logo eu, que sou a inimiga número um desses seres odiosos. Pois é. De tanto eu reclamar com o Jota e colocar em cheque sua masculinidade, ele passou a fazer das tripas coração e, numa prova de amor incontestável, começou a tentar matar as baratas que apareciam para acender o fogo da minha ira (sim, é exatamente esse o quadro quando eu me deparo com a presença abjeta desses seres, os quais Deus deve lá saber o porquê deles, quanto a mim, não me ocorre nada... Enfim...). 
Jota passou a tentar, nem sempre com sucesso, eliminar as miseráveis. E aí eram métodos absolutamente nada ortodoxos. Começou com a ingenuidade dos spray de inseticidas borrifados a partir de posições inócuas, progrediu para o bem intencionado mas igualmente inútil lançamento de chinelos à distância até atingir o corajoso sapateado-do-crioulo-doido pelos cômodos da casa, embora muitas vezes tenha me parecido mais um pas de deux do que um baraticídeo. De lá pra cá eu já vi de tudo: todos os lançamentos do mercado de inseticidas, esmagamentos com todo tipo de objeto que estiver à frente no momento de necessidade, artes marciais, armas brancas, etc. Ou melhor, eu pensava que já tinha visto de tudo, pois hoje o Jota se superou.
De repente percebi aquela agitação que vem logo depois do grito másculo e viril da descoberta da barata. Aprendi a ficar na minha, afinal, ele já tem pressão suficiente com que lidar. Em seguida vem o corre-corre da estratégia para acabar com o inseto miserável. A princípio ele optou pelo inseticida, mas como havia acabado, ele tentou aquele manjado "fica aqui enquanto eu vou buscar o chinelo que é pra ela não fugir", mas não colou. Me ofereci para pegar um chinelo e fui. Demorei um pouco a encontrar algum e, quando voltei à cozinha, o Jota estava despejando uma garrafa de cachaça na pia. Não entendi nada e perguntei: 
"Pra quê isso, Jota? Cadê a barata? Já matou?" 
E ele respondeu baixinho:
"Não, ela está aqui na pia."
E eu repliquei brincando, tentando diminuir a tensão do momento:
"E o que você está pretendendo? Fazê-la entrar em coma alcoolico?"
E o Jota, para o meu total e completo pasmo, gritou:
"Não! Eu estou pretendendo ISTO!"
Com toda destreza sacou de uma caixa de fósforo e muito rapidamente ateou fogo na pia, matando a barata carbonizada. E ainda completou num tom grave:
"Barata flambada, baby! Ela teve o que mereceu!"
Falar mais o quê? Finalmente algo que excedeu as famosíssimas bananas flambadas do histórico jantar de família...

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*Jota é um personagem fictício, inspirado nas figuras masculinas (pai, irmãos, marido, amigos, etc) da minha história.

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